Recentemente, a arte indígena, uma expressão pura da ancestralidade amazônica, começou a ganhar destaque em vitrines, passarelas de moda e até nas notícias nacionais. Embora essa visibilidade ajude a preservar tradições nativas, a prática de venda por intermediários (pessoas ou empresas não indígenas) tem gerado preocupações sobre a justiça dessa comercialização para os povos originários do Acre, especialmente neste 19 de abril, Dia dos Povos Indígenas.
Nacayra Brasil Yawanawá, uma artesã de 25 anos do povo Yawanawá, expressa seu descontentamento com a situação. Ela, que vive às margens do Rio Gregório, em Tarauacá, decidiu abrir sua própria loja online, @yawa_atelie, após inúmeras tentativas frustradas de parcerias. O objetivo é garantir um lucro justificado pela venda de suas obras.
“Nosso artesanato é frequentemente desvalorizado. As pessoas preferem comprar de atravessadores, que não repassam o lucro justo para os indígenas. Se alguém vê uma peça em uma barraca de um indígena, não a adquire, mas compra em uma loja de não indígenas, mesmo que a peça seja a mesma”, relata Nacayra.
Para a artesã, o reconhecimento do trabalho dos indígenas se dá quando os clientes adquirem diretamente dos artesãos. “Quando pessoas compram diretamente de nós, estão valorizando o tempo e o material investidos. O que acontece atualmente é que muitos preferem produtos que vêm com uma certa imagem, desvalorizando o verdadeiro significado do nosso artesanato”, explica.
Conexão com a Cultura
Nacayra fundou o Yawa Ateliê em sua casa, canalizando os conhecimentos que adquiriu vivendo na aldeia. Ela começou a compartilhar suas criações no Instagram em agosto de 2024, após desenvolver um apreço pelo artesanato enquanto se afastava de sua comunidade para estudar em Rio Branco. “O artesanato me ajudou a manter a conexão com meu povo, mesmo distante”, afirma.
Ela percebeu que as pessoas admiravam os acessórios que usava, e decidiu investir em seu ateliê. Os grafismos que adornam suas peças carregam significados profundos da cultura indígena. “Cada item que criamos é uma parte da nossa alma. O artesanato é uma forma de resistência e mantém vivas nossas tradições e ancestralidade”, enfatiza Nacayra.
Atualmente, sua loja opera exclusivamente online. “Tentei parcerias com lojas físicas, mas o retorno financeiro seria baixo, então optei por não prosseguir. Não estou apenas vendendo um acessório, mas uma parte da nossa história”, destaca.
O ateliê oferece pulseiras, colares, brincos e produtos personalizados. “A demanda por brincos tem sido alta aqui em Rio Branco. O valor das minhas peças varia: a pulseira mais barata custa R$ 150, enquanto um maxi colar pode chegar a R$ 600, e em alguns casos, até R$ 2 mil, dependendo do tamanho e da demanda”, explica.
A produção das peças é variável; uma pulseira leva cerca de dois dias, enquanto um maxi colar pode demorar mais de um mês para ser finalizado. Nacayra utiliza materiais duráveis e recicláveis em suas criações.
Além de criar suas próprias peças, ela também adquire artesanatos de meninas da comunidade quando visita sua aldeia, garantindo que os lucros cheguem diretamente a elas, sem a intermediação de atravessadores.
Desafios Enfrentados
Embora Nacayra ainda não consiga viver exclusivamente de seu artesanato e precise conciliar com outros empregos, ela acredita que é possível. “Quando reconhecermos nosso valor e a importância de nossa mão de obra, podemos consolidar esse negócio. Muitas vezes, não valorizamos nossas criações, esquecendo os desafios que nosso povo enfrentou”, reflete.
A artesã também critica a precariedade das rodovias no Acre, que dificultam o acesso às aldeias e encarecem os voos internos, impactando a divulgação do artesanato tradicional. “Melhorias nas estradas e redução dos preços das passagens aéreas ajudariam muito a população indígena, já que muitos dependem do turismo”, sugere.
Segundo Nacayra, 80% dos povos originários do Acre dependem de transporte, e a alta das tarifas limita o acesso ao mercado. “Atualmente, o Acre é um dos estados mais caros para viajar no Brasil. Se as passagens fossem mais acessíveis, haveria um aumento significativo de turistas, brasileiros e estrangeiros, e nossos artesãos poderiam mostrar seu trabalho”, conclui.
Sobre o crescente interesse por peças artesanais indígenas, Nacayra vê isso como algo positivo, mas ressalta que deve haver uma abordagem mais cuidadosa. “As pessoas ainda compram muito de atravessadores. Algumas marcas conhecidas fazem campanhas e compram de indígenas a preços baixos, vendendo com grande margem de lucro e sem repassar o valor justo. Essa situação é complexa. No entanto, estrangeiros têm demonstrado interesse em adquirir nossas peças diretamente, e realizamos envios internacionais”, finaliza.
