sexta-feira, dezembro 2, 2022
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Número de casos de covid-19 em Itinga cresce 291% em quase um mês

Homem sem máscara bebe cerveja em Itinga

Itinga é o bairro campeão de casos do novo coronavírus em Lauro de Freitas. A localidade tem hoje 493 registros de pessoas com a covid-19, um número 291,2% maior do que no dia 1º de junho, quando o balanço apontava 126 infectados. Dos 1.846 confirmados com a doença na cidade da Região Metropolitana de Salvador (RMS), segundo o último boletim epidemiológico do município, divulgado neste domingo (28), 26,7% pertencem a Itinga. Dos 31 óbitos pelo coronavírus no município, pelo menos nove aconteceram no bairro. 

O CORREIO esteve no local para entender o que está acontecendo em Itinga e os moradores são categóricos: “Ninguém está respeitando o isolamento social. Olhe para essa rua, meu filho!”, reclamou a dona de casa Vanessa Brito, 37 anos. De fato, para tantos casos registrados, era de se surpreender o movimento no bairro. Trânsito intenso, pessoas sem máscara e comércio a todo vapor foram observados.   

Na frente de uma barraca de lanches e bebidas, um rapaz sem máscara tomava normalmente um copo de cerveja. A boemia se misturava com o agito das calçadas. Pessoas caminhavam de um lado para outro para fazer compras nas várias lojas que estavam abertas. Não era difícil ver gente sem máscara ou a utilizando incorretamente. 

Em Itinga, algumas pessoas andam normalmente sem o equipamento de proteção (Foto: Marina Silva/CORREIO)

Na agência da Caixa Econômica Federal, cerca de dez pessoas formavam uma fila do lado de fora. Todas próximas, aproveitando a sombra formada por uma árvore. Do lado do banco, cerca de cinco pessoas se aglomeravam em duas barracas de feirantes para fazer as compras. Alguns também não utilizavam corretamente a máscara.   

População 
A prefeitura de Lauro de Freitas afirmou que considera, em seus dados, que a população estimada de Itinga é de metade da população estimada da cidade, que em 2019 estava em quase 200 mil habitantes. Isso significaria que apenas um bairro de Lauro de Freitas possui cerca de 100 mil pessoas, o que foi confirmado por Vidigal Cafezeiro, coordenador da equipe de combate ao novo coronavírus.  

Isso explicaria, segundo a gestão municipal, o alto número de pessoas com o vírus. O CORREIO solicitou à assessoria os dados exatos utilizados pela prefeitura de população de cada localidade, mas não obteve retorno até o fechamento da reportagem. Os demais bairros da cidade, que possuiriam os outros 100 mil habitantes do município, estão com 1.270 casos da doença. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) não possui estatísticas sobre os bairros de Lauro de Freitas, pois eles foram fundados em lei depois do Censo de 2010.

No bairro, muita gente descumpre o isolamento social (Foto: Marina Silva/CORREIO)

A gestão municipal informou também que considera o bairro como residencial, mas com uma alta quantidade de comércios ditos essenciais como mercados, farmácias, postos de gasolina e bancos. Isso explicaria a alta movimentação que é observada nas ruas principais da região. 

Para os especialistas consultados pelo CORREIO, a alta densidade demográfica dos bairros populares contribuem na disseminação do vírus.

“Nos locais populosos, é mais difícil manter um distanciamento social adequado, seja por fatores socioeconômicos ou culturais”, disse a infectologista Jacy Andrade.  

O professor Juan Moreno, do grupo de pesquisa Geocombate Covid-19, da Universidade Federal da Bahia (Ufba), falou que a realidade de Itinga reflete a característica da doença, que chega na cidade através das localidades de maior renda, mas se dissemina nas populares. “Como não houve um isolamento social completo, fatalmente a doença se espalha nos bairros populares. É importante a intervenção do poder público no local”, avaliou.   

Já o infectologista Adriano Oliveira descartou que a proximidade do bairro com Salvador e com o aeroporto internacional seja o motivo do alto número de casos. “O principal fator é a densidade populacional. O vírus se dissemina mais em bairros periféricos do que em bairros nobres por causa desse fator”, explicou.

Sem isolamento
Moradora da Itinga, Vanessa Costa, que um dia antes da entrevista tinha perdido o tio do seu enteado e ainda vivia o luto, se emocionou ao falar da situação do bairro. “Tem muita gente fazendo festa. Na véspera de São João, teve muitas fogueiras, inclusive na minha rua. Infelizmente, o pessoal só vai ter consciência quando perder alguém próximo”, afirmou. 

Vanessa Costa precisou sair rapidamente para levar o almoço do marido, que é rodoviário (Foto: Marina Silva/CORREIO)

Para Vanessa, pelo jeito, nem a morte talvez seja suficiente. Também morador de Itinga, o aposentado José Carlos, 64 anos, perdeu uma prima recentemente. O médico alegou que ela foi infectada pelo coronavírus, mas tinha outras comorbidades: câncer e diabetes, o suficiente para José crer que os dados estavam sendo manipulados. “Se fizermos uma investigação, os casos do bairro seriam bem menores. Tem muita falcatrua”, disparou.   

Na contramão dessa teoria da conspiração, estudos científicos apontam para a existência de 12 vezes mais casos de coronavírus que os registrados oficialmente, devido à subnotificação da doença.

“Eu acredito na ciência, mas sou evangélico. Tenho fé que não vamos ser atingidos pelo corona”, disse um feirante – sem se identificar – que trabalha na rua São Cristóvão. Parecia mesmo haver algo de muito errado no bairro. 

O rapaz da bicicleta não se envergonhou em sorrir para a foto desprotegido (Foto: Marina Silva/CORREIO)

Ações  
Para conter a disseminação do coronavírus, a Prefeitura de Lauro de Freitas também fez algumas ações no bairro. Do dia 3 de junho até 14 de junho, medidas de restrições mais rigorosas foram implantadas em Itinga. Na ocasião, foram instaladas cinco barreiras sanitárias que só permitiam a entrada de moradores no local e foram realizados 958 testes rápidos – 87 positivos. Também só foi permitido o funcionamento de serviços essenciais.  

“As medidas não continuaram, pois observamos uma desaceleração da taxa de contaminação do bairro”, contou Vidigal Cafezeiro. Para o agente de trânsito e também morador de Itinga, Marcos Antonio, 58 anos, a movimentação na região até diminuiu nos momentos de restrição, mas já voltou tudo ao normal, como se não houvesse pandemia. “Na véspera de São João, por exemplo, estava muito movimentado mesmo. Muita gente comprando coisas para a fogueira”, revelou.    

Se o trânsito não estivesse intenso, talvez Marcos pudesse viver o isolamento social em sua casa (Foto: Marina Silva//CORREIO)

Divisa 
Itinga é dividida territorialmente em duas regiões, uma que pertence a Lauro de Freitas e outra que pertence a Salvador. Para os moradores que vivem na divisa entre as duas cidades, a situação se torna ainda mais confusa. “Aqui na minha rua só teve toque de recolher na parte de cima. A fiscalização até passou por aqui, mas não fechou meu estabelecimento”, disse Rosalvo Romão, dono de uma loja de itens eletrônicos da Rua Santa Cecília.   

“A gente recebe correspondências das duas prefeituras. No caso do IPTU, sempre pagamos o que vem mais barato”, destacou o morador da Rua Canudos, Marcio Castro.

Segundo a Secretária de Saúde de Salvador (SMS), a sua parte de Itinga tem uma população de 11.951 habitantes e 21 casos registrados. Como rede de emergência não restringe o acesso por territorialidade, moradores de Lauro de Freitas podem ser atendidos na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de São Cristóvão, bairro de Salvador.  

Não há um controle das fronteiras entre as duas cidades e o compartilhamento de casos é uma possibilidade admitida por Cafezeiro, o que dificulta que se tenha a real noção da quantidade de casos das Itingas de Lauro de Freitas e de Salvador. “Temos que levar em consideração que o pessoal fica circulando. Muita gente que mora em Salvador vive a rotina de Lauro e isso é difícil de controlar”, disse o coordenador da equipe de combate ao novo coronavírus da prefeitura de Lauro de Freitas. 

Top 10 dos bairros com mais casos de covid-19 em Lauro de Freitas desde o início da pandemia:

  • Itinga – 493
  • Portão – 321
  • Centro – 171
  • Caji – 162
  • Ipitanga – 121
  • Vila Praiana – 109
  • Vida Nova – 105
  • Buraquinho – 82
  • Areia Branca – 63
  • Vilas do Atlântico – 41

Casos ativos de covid-19 nas cidades da RMS, segundo a Secretaria de Saúde da Bahia (Sesab): 

  • Salvador – 9.954
  • Lauro de Freitas – 838
  • Camaçari – 483
  • Simões Filho – 252 
  • Candeias – 132
  • Dias D’Ávila – 108
  • Madre de Deus – 93
  • São Francisco do Conde – 81
  • Pojuca – 68
  • São Sebastião do Passé – 57
  • Vera Cruz – 57
  • Mata de São João – 55
  • Itaparica – 21
     

* Com supervisão do subeditor Miro Palma

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