domingo, novembro 27, 2022
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Da rejeição ao orgulho LGBTI+: cearenses relatam como autoaceitação e apoio familiar ajudam na luta por respeito


Dia do Orgulho LGBTI+ é celebrado em 28 de junho, como símbolo da busca pela liberdade; no Ceará, marco é Parada pela Diversidade Sexual, adiada para novembro devido à pandemia de Covid-19. Cearenses relatam como autoaceitação e apoio familiar ajudam na luta por respeito
Arquivo pessoal
Neste 28 de junho, Dia do Orgulho LGBTI+, milhões de pessoas publicarão fotos, vídeos e mensagens celebrando a liberdade de amar e de ser quem querem – enquanto outras inúmeras ainda precisarão ficar escondidas sob o medo. Lésbica, gay, mulher bissexual e homem transexual cearenses narram trajetórias da rejeição à autoafirmação, destacando a importância de familiares e amigos na luta por respeito.
Para o estudante John Mesquita, 23, a busca é diária. Nascido e criado no Bairro Serrinha, na periferia de Fortaleza, John cresceu convivendo com o conservadorismo religioso da família e o machismo da comunidade. A autodescoberta enquanto gay, então, foi “repleta de indecisões”. “Eu não me via como os outros meninos, e me preocupava com o que os professores e a família pensariam. Na periferia, somos tachados com palavras chulas, pejorativas, se não nos comportamos como querem. Fiquei bem retraído até conseguir me encaixar”, relembra.
“Abraçar a homossexualidade e defendê-la”, inclusive diante da família, como faz hoje, foi possível depois que ele passou a conviver com outros LGBTI+ em um projeto social do bairro. “Precisamos ter pessoas LGBTI+ nas profissões, nos ambientes, pra que as outras gerações se vejam. A partir do momento em que você conhece outros que vivenciaram o mesmo, você se aceita. Pessoas que vieram antes nos ajudaram a lutar pela liberdade de expressar de quem nós somos”, pontua John.
Ver para transformar
“Pra mim, não existiam homens trans, só mulheres. Há três anos, descobri, vendo histórias na internet”, relata Mário Lucas
Arquivo pessoal
Conhecer histórias de outras pessoas também foi fundamental para a autodescoberta do jornalista Mário Lucas Silva, 24. “Pra mim, não existiam homens trans, só mulheres. Há três anos, descobri, vendo histórias na internet. Me identificava demais, mas ficava com muito medo. Sempre ouvia que pessoas trans vivem só até os 35 anos, no Brasil, e isso me abalava muito. Mas, em agosto passado, falei: ‘vou ser isso, não tem como eu me enganar’”, relembra.
O primeiro passo foi “ver que não tinha nada de errado, que quem tá errada é a sociedade em não aceitar”. Hoje, com apoio da família, da namorada e dos amigos, Mário busca manter a saúde mental para as próximas batalhas, adiadas pela pandemia de Covid-19: o tratamento hormonal, ofertado pelo Sistema Único de Saúde (SUS), e a retificação dos documentos, solicitada junto à Defensoria Pública do Ceará.
“Eu tinha feito todo o processo pelo plano de saúde do meu pai, que é policial, mas fiz 24 anos e perdi direito. Liguei pro Ambulatório Trans, não estava recebendo pacientes e me desesperei. Procurei o Centro de Referência LGBT, mas me encaminharam ao posto de saúde, que também não estava atendendo. O processo dos documentos também parou. É muito estressante”, desabafa o jovem. “O que me conforta é saber quem eu sou. Não é uma outra pessoa que vai me dizer. Eu tenho que ter esse orgulho de mim mesmo”, completa.
Durante a pandemia, o Centro de Referência LGBT Janaína Dutra, da Prefeitura de Fortaleza, tem ofertado atendimento remoto sobre violações de direito por orientação sexual ou identidade de gênero, por telefone (3452.2047) ou e-mail ([email protected]). A Defensoria Pública atende pelos mesmos suportes: telefone (98895-5514) e e-mail ([email protected]).
Já o Serviço de Referência Transdisciplinar para Transgêneros (Sertrans), do Hospital de Saúde Mental (HSM), “restringiu o atendimento a pacientes já encaminhados previamente pela Central de Regulação do Estado”, assistidos remotamente, disse em nota.
Diversidade unida
Patrícia Maria: “A bissexualidade produz outras formas de eu ver as coisas”
Arquivo pessoal
Além de ser importante para o processo de se reconhecer, como para Mário, a união diversa da comunidade LGBTI+ é fundamental para sobrevivência. Estar em grupos de outras mulheres pretas e bissexuais é a estratégia da professora e socióloga Patrícia Maria, 31, para se manter “nesse lugar político” de amar, pelo menos, ambos os gêneros.
“A bissexualidade produz outras formas de eu ver as coisas. Transito muito entre a bi e a panssexualidade, que é sobre se relacionar com pessoas, de gênero feminino, masculino, agênero… Mas isso não é sinônimo de estar em cima do muro – é permanente”, sentencia Patrícia.
Segundo Patrícia, as questões turbulentas de ser bissexual não ocorreram ao assumir isso a si, à família ou aos amigos: mas nos relacionamentos. “Já cheguei a pensar que ocultar isso seria uma forma de proteção. Quando falo pra homens que sou bi, acontece de questionarem se eu transaria com eles e outra mulher. Mas bissexualidade não é sinônimo de poliamor”, desabafa, ressaltando, contudo, que questões assim fortalecem o orgulho de ser. “Pessoas LGBTs estão lutando pela coisa mais revolucionária que se pode produzir: o discurso por amor e liberdade.”
Liberdade de ser
Amor e liberdade, aliás, ditam os dias da educadora física Beatriz Mesquita, 31, que se reconheceu como lésbica por volta dos 15 anos de idade. A resistência da família e dela mesma à sexualidade, as ameaças de expulsão de casa e a “vida dupla” que tinha quando namorava escondida são, agora, apenas memórias. “Hoje, vivo o sonho da família LGBT: minha namorada vai à casa dos meus pais, eles aceitam totalmente. Minha mãe vai até pra passeata da Diversidade, é mais militante que eu!”, brinca.
Diante de todas as conquistas por respeito, que ela classifica como “maiores motivos de orgulho”, Beatriz sustenta ainda um desejo comum aos LGBTI+. “Passei oito anos presa, mentindo pra família e tendo que me esconder, agora quero gritar essa liberdade pra todos os cantos do mundo. E que mais pessoas vivam isso também”.
Parada LGBTI+
John Mesquita: “Eu não me via como os outros meninos, e me preocupava com o que os professores e a família pensariam”
Arquivo pessoal
No Ceará, principalmente em Fortaleza, o marco da celebração do orgulho é a Parada pela Diversidade Sexual, organizada pelo Grupo de Resistência Asa Branca (Grab) e realizada pela primeira vez em 1999. Em 2020, devido à pandemia de Covid-19, a passeata que seria neste domingo (28) foi adiada para 29 de novembro, “data sujeita a posterior confirmação, de acordo com as circunstâncias e a realidade da pandemia nos próximos meses e dos decretos municipais e estaduais”, conforme comunicou o grupo.
A data-marco ao final de junho faz alusão à Revolta de Stonewall, ocorrida em Nova York, em 1969, quando pessoas LGBTI+ que frequentavam o bar Stonewall Inn reagiram por dois dias contra perseguição policial frequente no local. No ano seguinte, foi realizada a I Parada do Orgulho LGBT, em 1° de julho de 1970.
Para Dário Bezerra, integrante do grupo e da coordenação da XXI Parada pela Diversidade Sexual do Ceará, celebrar o orgulho visa não só buscar um futuro mais seguro, mas homenagear as lutas do passado. “É lembrar de todas as LGBTI+ que deram suas vidas na construção de um projeto político de uma sociedade inclusiva, em que o respeito seja uma forma fundamental de se viver”.
Um relatório divulgado em abril pelo Grupo Gay da Bahia (GGB) registrou a ocorrência de 329 mortes violentas de LGBTs no Brasil, em 2019, das quais 297 foram homicídios e 32, suicídios. Fortaleza apareceu como quinta capital mais violenta do País, com seis registros, atrás de Salvador (12), São Paulo (11) e Rio de Janeiro (7), empatada com Belo Horizonte(6) e seguida por Curitiba e Recife (5).
Além do respeito à vida e à convivência em sociedade, Dário destaca que a comunidade segue em processo de conquista de acesso pleno a políticas públicas, como saúde, educação e mercado de trabalho. “Para além disso, a luta é em defesa das nossas vidas. Ainda temos negado, todo dia, esse direito primeiro, garantido pela Carta dos Direitos Humanos”, pontua.
Conquistas históricas da população LGBTI+ no Ceará
1989 – Grupo de Resistência Asa Branca (Grab) é fundado em Fortaleza. Em 1992, entidade tornou-se de Utilidade Pública.
2009 – Ceará proíbe qualquer tipo de discriminação por orientação sexual, incluindo combate como um dos princípios documentados do Estado.
2013 – Conselho Nacional de Justiça (CNJ) obriga cartórios a firmarem casamentos homoafetivos. Ceará foi 8º estado a converter uniões estáveis em casamentos civis.
2019 – Agressões contra pessoas LGBTI+ são enquadradas como crime de racismo, até que norma específica seja votada pelo Legislativo. Secretaria da Segurança do Ceará inclui campos “orientação sexual” e “identidade de gênero” no Sistema de Informações Policiais.
2020 – Supremo Tribunal Federal (STF) derruba restrições à doação de sangue por homens gays. Ceará é o primeiro estado a permitir doação de sangue de homens homossexuais.

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